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sábado, 24 de setembro de 2022

Paz e Vida - Meime

 


Todos estamos concordes, quanto ao imperativo de se colaborar na sustentação da paz.

A paz, no entanto, é uma construção quase sempre mais difícil que qualquer outra que se levante sobre estruturas materiais.

O próprio Jesus quando prometeu aos companheiros “a minha paz vos dou”, não fez semelhante afirmativa senão depois do extremo sacrifício.

Se nos propomos a contribuir na preservação da harmonia, em nosso grupo doméstico ou social, aprendamos a compreender os outros, a fim de auxiliá-los, sempre que preciso, a se ajustarem ao esquema de equilíbrio, sobre o qual as leis da vida se executam.

Tantas vezes aspiramos a alcançar a paz, exigindo-a de pessoas que, em muitas ocasiões, jazem às portas do desespero, aguardando algum gesto de simpatia, capaz de aliviá-las na tensão que as aflige.

Se queres serenidade nas criaturas queridas, procura envolve-las em tua própria serenidade, porquanto a paz é um sentimento que se transmite de coração para coração.

Às vezes, é indispensável renunciar à alegria própria, a fim de que se veja a alegria brilhar na face daqueles que os compartilham a existência. Para isso, é necessário operar no câmbio da compreensão, pelo qual entregamos a outrem aquilo que careçamos receber.

Nesse sentido, frequentemente, aqueles que te pareçam ferir, em verdade, muito te amam, entretanto, provisoriamente se inclinam para estradas e tarefas que se relacionam com eles e não contigo.

Se podes entender essa realidade, estás em condições de produzir a paz.

E chegados a esse ponto de nossas experiências, penetraremos esta profunda lição da vida que resumimos aqui em poucas palavras: “a paz que se dá é a paz que se tem”.

Extraído do livro Janela para a vida Francisco Cândido Xavier e Fernando Worm

 

Oração de Sempre - Meimei

 


Senhor Jesus!

Entre as forças que Te servem, reconheço a minha quase total desvalia. Entretanto, graças à Tua bondade, na fé que me concedeste guardo um valor que me honra, embora as imperfeições que ainda carrego.

Apesar da migalha de colaboração que Te possa oferecer, no crédito que me confias, auxilia-me a ser útil em Teu serviço.

Nas horas de crise, induze-me a ser a esperança daqueles que estejam esmorecendo no dever a cumprir; nas discórdias que encontre, coloca em meus lábios a palavra de tolerância e união; no tumulto, conserva-me em Tua serenidade para que eu seja uma nota de paz; junto aos irmãos que ainda não consigam trabalhar, faze que, de algum modo, possa eu substitui-los sem queixa; em minhas necessidades atendidas não me consintas menosprezar os companheiros, que ainda não disponham dos recursos que me emprestas e nos dias de penúria e dificuldade, nos quais me levas a aprender paciência e coragem, não me permitas humilhar a ninguém.

 Senhor ensina-me a ser o pensamento que modela o bem, o sentimento que compreenda e perdoe, o olhar que vê sem malícia, o ouvido que escuta a aspereza sem transmiti-la aos outros, a mão que trabalha e protege; e a voz que esclarece e abençoa sem azedume ou condenação.

Servir é o único meio de renovar-me, segundo os Teus ensinamentos. Ajuda-me a agir e servir, sem qualquer ideia de cansaço ou compensação; e, se não posso ombrear com as inteligências que se transformam em chamas de Teu amor para engrandecerem a vida, deixa, Senhor, que eu seja, entre os irmãos de experiência e de prova, um pequenino raio da Tua luz.

 

Extraído do livro Janela para a vida Francisco Cândido Xavier e Fernando Worm

 

 

 

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

NESTE EXATO MOMENTE

 

 

 

Neste exato momento, você está na situação mais apropriada ao exercício da compreensão e do auxílio:

- na circunstância mais favorável para fazer o bem;

 - de coração ligado às criaturas certas, junto das quais precisa trabalhar e harmonizar-se;

- com a tarefa mais adequada às suas necessidades;

- nas responsabilidades justas de que deve desincumbir-se;

 - no ponto mais importante para dar o testemunho de sua aplicação à fraternidade;

 - de reconhecer que a nossa felicidade é medida pela felicidade que fizermos para os outros;

- de observar que, muitas vezes, vale mais perder para conquistar do que conquistar para perder;

- de ajustar-se à paciência e à esperança para consolidar o próprio êxito no instante oportuno; - de não esmorecer com a dificuldade, a fim de merecer o benefício;

- de sorrir e abençoar para receber simpatia e cooperação;

E, por isso mesmo, você agora está no momento exato de trabalhar para servir.

E, trabalhando e servindo, você adquirirá a certeza de que toda pessoa que trabalha e serve caminha para  frente e, quem caminha para frente, com o bem de todos, encontrará sempre o melhor.

André Luiz

terça-feira, 12 de outubro de 2021

SEGUNDA MILHA

 


 

"E se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas."- Jesus (Mt 5:41)

 

As milhas a que se reportam os ensinamentos do Mestre são aquelas de nossa jornada espiritual no processo de elevação cada dia 

Aprender a ceder para os outros, se desejas realmente ajudar.

Não regenerarás o criminoso atormentado-lhe o campo íntimo com chibatadas verbais, 

Não corrigirás o transviado à força de imposições humilhantes e 

nem conquistarás a confiança curativa do enfermo, aprofundando-lhe as próprias chagas.

Em qualquer problema que alcance as raízes da alma, é imprescindível penetrar o núcleo vivo de elaboração do pensamento e aí depositar a bendita semente da simpatia, a favor da solução necessária.

Vencer sem convencer é consolidar a discórdia.

Indispensável marchar em companhia dos outros, onde os outros lutam e choram, a fim de que possamos ampará-los com eficiência.

Quem poderia entender o Cristo se o Mestre, longe de descer à Terra, usasse uma Tribuna de Luz, dirigindo-se do Céu distante aos homens?

Para a renovação de sentimentos alheios, única medida suscetível de estabelecer o progresso espiritual e fundamentar a paz, é imprescindível aprendamos a caminhar com os semelhantes no terreno das concepções que esposam, para que a discussão esterilizante não elimine os embriões de fraternidade e confiança que prometem a vitória do amor e da luz.

Não basta, porém concordar secamente, como quem se desvencilha de um fardo desagradável.

É preciso 

"Caminhar com o Próximo", confraternizando.

Ainda mesmo quando estejamos em companhia de um delinquente, adotemos por guia a piedade edificante, que auxilia sem qualquer exteriorização de superioridade.

Deixa que teu irmão te confie os próprios amargores, sem mágoa, sem espanto e sem revolta.

Estende às mãos seguras e bondosas aos que tombaram.

Aprende a descer para ajudar.

E então a tua voz será convenientemente ouvida, porque terás caminhado, em benefício do companheiro ignorante, fraco, perturbado ou sofredor, aquela "Segunda Milha" das eternas Lições de Luz.

Extraído do Livro Cartas do Coração - psicografia de Francisco Cândido Xavier


fonte http://www.oconsolador.com.br/ano9/427/emmanuel.html

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A SEGUNDA MILHA

segunda-feira, 21 de junho de 2021

COMPANHEIROS DE JORNADA



Talvez que um dos mais belos espetáculos ante a Espiritualidade Superior, seja o de anotar a persistência dos companheiros enfaixados na Vida Física, sempre que se mostrem decididamente empenhados a lutar pela vitória do bem.

Companheiros que, em muitas ocasiões comparecem nas tarefas do bem, vergados ao peso do sofrimento; que se reconhecem constantemente visitados por forças contrárias aos compromissos que abraçam a lhes testarem tempestades ocultas na própria alma; que, às vezes, se sentem espancados por injúrias nascidas de muitos daqueles aos quais se afeiçoaram com os mais altos valores da própria vida e, que, no entanto, renovam as próprias forças na oração, através da qual confiam em Deus e em si mesmos, prosseguindo adiante nos encargos construtivos que lhes dizem respeito.

Em outras circunstâncias, eles próprios caem no erro, sempre natural naqueles que ainda caminham sob os véus da existência física, mas sabem reerguer-se, de imediato, com suficiente humildade para o recomeço da marcha.

E trabalham. E se esfalfam na própria melhoria, respeitando a estrada dos outros, da qual recolhem exemplos edificantes, sem procurarem qualquer motivação à censura, evitando congelar a seara aleia.

Se te propões a colaborar no levantamento do bem de todos, não desistas de agir, e servir.

Momentos sobrevirão em que o teu campo de atividades parecerá coberto de sombras e sentirás talvez o coração transido de lágrimas.

Ainda assim, não te marginalizes.

Chora, mas prossegue lutando e trabalhando pelo bem comum.

Se tropeças, reajusta-te.

Se cais, levanta-te e continua em serviço.

Se desenganos te requisitam, torna ao replantio de esperanças maiores e segue adiante, amando e auxiliando no melhor a fazer.

Relacionando as dificuldades que todos trazemos, por enquanto, nos recessos do ser, é justo considerar que a vitória em nós e sobre nós ainda nos custará muito esforço de construção e reajuste, entretanto, para alterar-nos ao ideal do bem, fixando energias para sustentá-lo, recordemos o Cristo de Deus; regressando, depois da morte, à convivência dos discípulos, Jesus nem de longe lhes assinala as deficiências e as fraquezas e sim lhes reafirma em plenitude de confiança: - “Estarei convosco até o fim dos séculos”.

Emmanuel

Extraído do livro Amigo Uma visita ao coração – psicografia de Francisco Cândido Xavier.

 

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

A CASA MENTAL


Retomando a companhia de Calderaro, na manhã luminosa absorvia-me o propósito de enriquecer noções pertinentes às manifestações da vida próxima à esfera física.

Admitido à colônia espiritual, que me recebera com extremado carinho, conhecia de perto alguns instrutores e fiéis operários do bem.

Inquestionavelmente, vivíamos todos em intenso trabalho, com escassas horas reservadas a excursões de entretenimento; demais, fruíamos ambiente de felicidade e alegria a favorecer-nos a marcha evolutiva. Nossos templos constituíam por si sós, abençoados núcleos de conforto e de revigoramento. Nas associações culturais e artísticas encontrávamos a continuidade da existência terrestre, enriquecida, porém, de múltiplos elementos educativos. O campo social regurgitava de oportunidades maravilhosas para a aquisição de inestimáveis afeições. Os lares, em que situávamos o serviço diuturno, erguiam-se entre jardins encantadores, quais ninhos tépidos e venturosos em frontes perfumadas e tranquilas.

Não nos faltavam determinações e deveres, ordem e disciplina; entretanto, a serenidade era nosso clima, e a paz, nossa dádiva de cada dia.

Arremessara-nos a morte a atmosfera estranha à luta física. A primeira sensação fora o choque. Empolgara-nos o imprevisto. Continuávamos vivendo, apenas sem a máquina fisiológica, mas as novas condições de existência não significavam subtração da oportunidade de evolver. Os motivos de competição benéfica, as possiblidades de crescimento espiritual haviam lucrado infinitamente. Podíamos recorrer aos poderes superiores, entreter relações edificantes, tecer esperanças e sonhos de amor, projetar experiências mais elevadas no setor reencarnacionista, aprimorando-nos no trabalho e no estudo e dilatando a capacidade de servir.

Em suma, a passagem pelo sepulcro condizia-nos a uma vida melhor; mas... E os milhões que transpunham o estreito limiar da morte, permanecendo apegados à Crosta da Terra?

Incalculáveis multidões desse gênero mantinham-se na fase rudimentar do conhecimento; apenas possuíam algumas informações primárias da vida; exoravam amparo dos Espíritos Superiores, como as tribos primitivas reclamam o concurso dos homens civilizados; precisavam desenvolver faculdades, como as crianças de crescer; não permaneciam chumbadas à esfera carnal pro maldade, senão que se demoravam, hesitantes, no chão terreno, como os pequeninos descendentes dos homens se conchegam ao seio materno; guardavam das existências apenas lembranças do campo sensitivo, reclamando a reencarnação quase imediata quando lhes não era possível à matrícula em nossos educandários de serviço e aprendizado iniciais. Por outro lado, verdadeiras falanges de criminosos e transviados agitavam-se, não longe de nós, depois de haverem transposto as fronteiras do túmulo; consumiam, por vezes, inúmeros anos entre a revolta e a desesperação, personificando hórridos gênios da sombra, como ocorre, nos círculos terrenos, com os delinquentes contumazes, segregados da sociedade sadia; mas sempre terminavam a corrida louca nos desvios escuros do remorso e do sofrimento, penitenciando-se, por fim, de suas perversidades. O arrependimento é, porém, caminho para a regeneração e nunca passaporte direto para o céu, razão pela qual esses infelizes formavam quadros vivos de padecimento e de horror.

Em várias experiências, via-os conturbados e aflitos, assumindo formas desagradáveis ao olhar.

Nos casos de obsessão convertiam-se em recíprocos algozes, ou, então, em verdugos frios das vítimas encarnadas; quando errantes ou circunscritos aos vales de punição, aterravam sempre pelos espetáculos de dor e de miséria sem limites.

No entanto, era forçoso convir, eles, os desventurados, e nós outros, que continuávamos trabalhando em ritmo normal, atravessáramos o invólucro material sob o assédio de doenças análogas. Isto considerando e por desejar conhecer a Divina Lei, que não concede paraísos de favor nem estabelece infernos eternais, confrangia-me o comtemplar as imensas fileiras de infortunados.

Efetivamente, identificara numerosos deles em câmaras retificadoras, através de múltiplas instituições de beneficência; todavia, esses, situados na zona de amparo fraterno, apresentavam a seu favor sintomas de melhora quanto ao reconhecimento das próprias falhas ou aos créditos espirituais de que gozavam, mercê de certas forças intercessoras.

Os infelizes, a que aludimos, provinham, porém, de outras origens. Eram os ignorantes, os revoltados, os perturbadores e os impenitentes, de alma impermeável às advertências edificantes, os enfatuados e os vaidosos dos mais vários matizes, perseverantes no mal, dissipadores da energia anímica, em atitudes perversas diante da vida.

Meu contato com eles, em diversas ocasiões, fora simples encontro fortuito, sem maior significado para meu esclarecimento.

Por que motivo se demorava no hemisfério obscuro da incompreensão? Adiavam deliberadamente a recepção da luz? Não lhes doeria a condição de seres condenados, por si mesmos, a longas penas? Não experimentariam vergonha pela perda voluntária de tempo? Muita vez, surpreendia-me a contemplá-los... Os traços fisionômicos de muitos desses desventurados pareciam monstruosos desenho, provocando ironia e piedade. Que lei regeria a estereotipação de suas formas? Tê-los-ia olvidado a mãe-natureza, pródiga de bênçãos em todos os planos, ou recebiam eles esses traços de apresentação pessoal como castigo imposto por superiores desígnios?

Tais interrogações que me esfervilhavam no cérebro me punham aflito por viver a possibilidade que se me oferecia.

Aproximei-me de Calderaro, naquela manhã, sedento de saber. Expus-lhe minhas indagações íntimas, relatei-lhe aos ouvidos tolerantes minhas expectativas ansiosas, longamente sofreadas; pretendia conhecer os que se entretinham na maldade, no crime, na inconformação.

Meu amigo escutou calmo, sorriu benevolente e começou por esclarecer:

- Antes de mais nada, André, modifiquemos o conceito. Para transforma-nos em legítimos elementos de auxílio aos Espíritos sofredores, desencarnados ou não, é-nos imprescindível compreender a perversidade como loucura, a revolta como ignorância e o desespero com enfermidade.

Ante a minha perplexidade, acrescentou, fraternal:

- Entendeste? Estas definições, em verdade, não são minhas. Aprendemo-las do Cristo, em seu trato divino com a nossa posição de inferioridade, na Crosta Terrestre.

Julguei que o Instrutor se estendesse em longa exposição verbalista, relativa ao assunto, trazendo referências preciosas e comentando experiências pessoais. Nada disto; Calderaro informou-me simplesmente:

- A cegueira do espírito é fruto da espessa ignorância em manifestações primarias ou do obnubilamento da razão nos estados de aviltamento do ser. Nosso interesse, no socorro mente desequilibrada, é analisar este último aspecto da sombra que pesa sobre as almas; assim sendo, faz-se mister saberes alguma coisa da loucura no âmbito da civilização. Para isto, convém estudarmos mais detidamente, o cérebro do homem encarnado e o do home desencarnado em posição desarmônica, por situarmos aí o órgão de manifestação da atividade espiritual.

Desejaria continuar ouvindo-o nas explicações claras e convincentes, a lhe fluírem dos lábios, mas Calderaro silenciou para afirmar, passados alguns instantes:

- Não disponho de muito tempo para discretear de matéria estranha aos meus serviços; todavia, lidaremos juntos, convictos de que, trabalhando nas boas obras, aprendemos sempre a ciência da elevação.

Sorriu fraternal, e rematou:

Daí a minutos, acompanhando-o, penetrei vasto hospital, detendo-nos diante do leito de certo enfermo, que o Assistente deveria socorrer. Abatido e pálido, mantinha-se ele unido a deplorável entidade de nosso plano, em míseras condições de inferioridade e de sofrimento. O doente, embora quase imóvel, acusava forte tensão de nervos, sem perceber, com os olhos físicos, a presença de companheiro de sinistro aspecto. Pareciam visceralmente jungidos um ao outro, tal a abundância de dois tenuíssimos que mutualmente os entrelaçavam, desde o tórax à cabeça, pelo que se me afiguravam dois prisioneiros de uma rede fluídica. Pensamento de um deles com certeza viveriam no cérebro do outro. Comoções e sentimentos seriam permutados entre ambos com matemática precisão. Espiritualmente, estariam, de contínuo, perfeitamente identificados entre si. Observava-lhes, admirado, o fluxo de comuns vibrações mentais.

Dispunha-me a comentar o fenômeno, quando Calderaro, percebendo-me a intenção, se adiantou, recomendando:

- Examina o cérebro de nosso irmão encarnado.

Concentrei-me na contemplação do delicado aparelho, centralizando toda a minha capacidade visual, de modo a analisa-lo interiormente.

O envoltório craniano, ante meus poderes visuais intensificados, não apresentava resistência. Como reparara de outras vezes, ali estava o complicado departamento da produção mental, semelhando-se a laboratório dos mais complexos e menos acessíveis. As circunvoluções separadas entre si, reunidas em lobos, igualmente distanciados uns dos outros pelas cissuras, davam-me a ideia de um aparelho elétrico, quase indevassado pelos homens. Comparando os dois hemisférios, recordei as designações da terminologia clássica e demorei-me longos minutos reparando as especiais disposições dos nervos e as características da substância cinzenta.

A voz do meu orientador quebrou o silêncio, exclamando inopinadamente:

-Observa a sinalização;

Assombrado, notei, pela primeira vez, que as irradiações emitidas pelo cérebro continham diferenças essenciais. Cada centro motor assinalava-se com peculiaridade diversa, através das forças radiantes. Descobri surpreso, que toda a província cerebral, pelos sinais frontais, as zonas de associação eram quase brilhantes. Do córtex motor, até a extremidade da medula espinhal, a claridade diminuía, para tomar-se ainda mais fraca nos gânglios basais.

Já despendia alguns minutos na contemplação das células nervosas, quando o Assistente me aconselhou:

- Examinaste o cérebro do companheiro que ainda se prende ao veículo denso; observa, agora, o mesmo órgão no amigo desencarnado que i influencia de modo direto.

A entidade, que não se dava conta de nossa presença, em virtude do círculo de vibrações grosseiras em que se mantinha, fixava toda a atenção no doente, lembrando a sagacidade de um felino vigiando a presa.

Observei-lhe estranha ferida na região torácica e dispunha-me a investigar lhe a causa, sondando os pulmões, quando Calderaro me corrigiu se afetação:

- Trataremos da chaga no trabalho de assistência. Concentra as possibilidades da visão no cérebro.

Decorridos alguns momentos, concluí que, à parte a configuração das peças e o ritmo vibratório tinham sob os olhos dois cérebros quase idênticos. Diferia o campo mental do desencarnado, revelando alguma superioridade no terreno da substância, que, no corpo perispiritual, era mais leve e menos obscura. Tive a impressão de que, se lavássemos, por dentro, o cérebro do amigo estirado no leito, escoimando-o de certos corpúsculos mais pesados, seria ele quase igual, em essência, ao da entidade que eu mantinha sob exame. As divisões luminosas, porém, eram em tudo análogas. Mais luz nos lobos frontais, menos luz no córtex motor e quase nenhuma na medula espinhal, onde as irradiações se faziam difusas e opacas.

Interrompi o estudo comparativo, depois de acurada perquirição, e fixei Calderaro em silenciosa interrogativa.

O prestimoso mentor argumentou sorridente:

- Depois da morte física, o que há de mais surpreendente para nós é o reencontro da vida. Aqui aprendemos que o organismo perispirítico que nos condiciona em matéria mais leve e mais plástica, após o sepulcro, é fruto igualmente do processo evolutivo. Não somos criações milagrosas, destinadas ao adorno de um paraíso de papelão. Somos filhos de Deus e herdeiros dos séculos, conquistando valores, de experiência em experiência, de milênio a milênio. Não há favoritismo no Templo Universal do Eterno e todas as forças da Criação aperfeiçoam-se no Infinito. A crisálida de consciência, que reside no cristal a rolar na corrente do rio, aí se acha em processo liberatório; as árvores que por vezes se aprumam centenas de anos, a supor os golpes do inverno e acalentadas pelas carícias da primavera, estão conquistando a memória; a fêmea do tigre, lambendo os filhinhos recém-natos, aprende rudimentos do amor; o símio, guinchando, organiza a faculdade da palavra. Em verdade, Deus criou o mundo, mas nós nos conservamos ainda longe da obra completa. Os seres que habitam o Universo ressumbrarão suor por muito tempo, a aprimorá-lo. Assim também a individualidade. Somos criação do Autor Divino e devemos aperfeiçoar-nos integralmente. O Eterno Pai estabeleceu como lei universal que seja a perfeição obra de cooperativismo ente Ele e nós, os seus filhos.

O mentor silenciou por instantes, sem que me acudisse ânimo suficiente para trazer qualquer comentário aos seus elevados conceitos.

Logo após, indicou-me a medula espinhal e continuou:

- Creio ociosa qualquer alusão aos trabalhos primordiais do nosso longo drama de vida evolutiva. Desde a ameba, na tépida água do mar, até o homem, vimos lutando, aprendendo e selecionando invariavelmente. Para adquirir movimento e músculos, faculdades e raciocínios, experimentamos a vida e por ela fomos experimentados, milhares de anos. As páginas da sabedoria hinduísta são escritos de ontem e a Boa-Nova de Jesus-Cristo é matéria de hoje, comparadas aos milênios vividos por nós, na jornada progressiva.

Depois de fazer com a destra significativo gesto, prosseguiu:

- No sistema nervoso, temos o cérebro inicial, repositório dos movimentos instintivos e sede das atividades subconscientes; figuremo-lo como sendo o porão da individualidade, onde arquivamos todas as experiências e registramos os menores fatos da vida. Na região do córtex motor, zona intermediária entre os lobos frontais e os nervos, temos o cérebro desenvolvido, consubstanciando as energias motoras de que se serve a nossa mente para as manifestações imprescindíveis no atual momento evolutivo do nosso modo de ser. Nos planos dos lobos frontais, silenciosos ainda para a investigação científica do mundo, jazem materiais de ordem sublime, que conquistaremos gradualmente, no esforço de ascensão, representando a parte mais nobre de nosso organismo divino em evolução. 

Os esclarecimentos singelos e admiráveis empolgavam-me. Calderaro era educador da mais elevada estirpe. Ensinava sem cansar, sabia conduzir o aprendiz a conhecimentos profundos sem nenhum sacrifício da parte do aluno.

Apreciava lhe eu a nobreza, quando prosseguiu, findo breve intervalo:

- Não podemos dizer que possuímos três cérebros simultaneamente. Temos apenas um que, porém, se divide em três regiões distintas. Tomemo-lo como se fora um castelo de três andares: no primeiro situamos a residência de nossos impulsos automáticos, simbolizando o sumário vivo dos serviços realizados; no segundo localizamos o domicílio das conquistas atuais, onde se erguem e se consolidam as qualidades nobres que estamos edificando; no terceiro, temos a casa das noções superiores, indicando as eminências que nos cumpre atingir. Num deles moram o hábito e o automatismo; no outro residem o esforço e a vontade; e no último demoram o ideal e a meta superior a se alcançada. Distribuímos, deste modo, nos três andares, o subconsciente, o consciente e o superconcentre. Como vemos. Possuímos, em nós mesmos, o passado, o presente e o futuro.

Verificando-se pausa mais longa, dei curso às ponderações íntimas, segundo antigo vezo de inquirir.

As preciosas explicações que ouvira não poderiam ser mais simples, nem mais lógicas. Entretanto, perquiria a mim mesmo: o cérebro de um desencarnado seria também suscetível de adoecer? Sabia eu que a substância cinzenta, no mundo carnal, podia ser acometida pelos tumores, pelo amolecimento, pela hemorragia; mas na esfera nova, a que a morte me conduzira que fenômenos mórbidos assediariam a mente?

Calderaro registrando-me as indagações e esclareceu:

-Não discutiremos aqui as moléstias físicas propriamente ditas. Quem acompanha, como nós, desde muito tempo, o ministério dos psiquiatras verdadeiramente consagrados ao bem do próximo, conhece, à saciedade, que todos os títulos de gratidão humana permanecem inexpressivos ante o apostolado de um Paul Broca, que identificou a enfermidade do centro da palavra, ou de um Wagner Jauregg, que se dedicou à cura da paralisia, em perseguição ao espiroqueta da sífilis, até encontra-lo no recesso da matéria cinzenta, perturbando as zonas motoras. Diante de fenômenos como estes, é compreensível a quebra da harmonia cerebral em consequência de compulsoriamente se arredarem das aglutinações celulares do campo fisiológicos os princípios do corpo perispiritual; essas aglutinações ficam, então, desordenadas em sua estrutura e atividade normais, qual acontece ao violino incapacitado para a execução perfeita dum trecho melódico, por trazer uma ou duas cordas desafinadas. Não devemos, nem podemos ignorar as leis que regem os domínios da forma. Daí a impossibilidade de querermos psicologia equilibrada sem fisiologia harmoniosa, na esfera da ciência humana: isto é caso pacífico. Referir-nos-emos tão só às manifestações espirituais em sua essência. Indagas se a mente desencarnada pode adoecer... Quer pergunta! Cuidas que a maldade deliberada não seja moléstia da alma? Que o ódio não constitui morbo terrível? Supões, porventura, não haja vermes mentais da tristeza e da inconformação? Embora tenhamos a felicidade de agir num corpo mais sutil e mais leve, graças à natureza de nossos pensamentos e aspirações, já distantes das zonas grosseiras da vida que deixamos, não possuímos ainda o cérebro dos anjos. Constitui-nos incessante trabalho a conservação de nossa forma atual, a caminho de conquistas mais alcandoradas; não podemos descansar nos processos iluminativos; cumpre-nos purificar sempre, selecionar pendores e joeirar concepções, de molde a não interromper a marcha. Milhões vivem aqui, na posição em que nos achamos, mas outros milhões permanecem na carne ou em nossas linhas mais baixas de evolução, sob o guante de atroz demência. É para esses que devemos cogitar da patologia do espírito, socorrendo os mais infelizes e interferindo fraternal e indiretamente na solução de problemas escabrosos em cujos fios negros, em terrível colheita de espinhos e desilusões. O corpo perispiritual humano, vaso de nossas manifestações, é, por ora, a nossa mais alta conquista na Terra, no capítulo das formas. Para as almas esclarecidas, já iluminadas de redentora luz, representa ele uma ponte para o campo superior da vida eterna, ainda não atingido por nós mesmos; para os espíritos vulgares é a restrição indispensável e justa; para as consciências culpadas, é cadeia intraduzível, pois, além do mais, registra os erros cometidos, guardando-os com todas as particularidades vivas dos negros momentos da queda. O gênero da vida de cada um, no invólucro carnal, determina a densidade do organismo após a perda do corpo denso. Ora, o cérebro é o instrumento que traduz a mente, manancial de nossos pensamentos. Através dele, pois, unimo-nos à luz ou à treva, ao bem ou ao mal.

Percebendo a atenção com que lhe seguia os preciosos esclarecimentos, Calderaro sorriu significativamente e perguntou:

- Compreendestes?

Indicando os dois sofredores, ao nosso lado, prosseguiu:

-Examinamos aqui dois enfermos: um, na carne; outro, fora dela. Ambos trazem o cérebro intoxicado, sintonizando-se absolutamente um com o outro. Espiritualmente, rolaram do terceiro anda, onde situamos a concepções superiores, e, entregando-se ao relaxamento da vontade, deixaram de acolher-se no segundo andar, sede do esforço próprio, perdendo valiosa oportunidade de reerguer-se; caíram, destarte, na esfera dos impulsos instintivos, onde se arquivam todas as experiências da animalidade anterior. Ambos detestam a vida, odeiam-se reciprocamente, desesperam-se, asilam ideias de tormento, de aflição, de vingança. Em suma, estão loucos, embora o mundo lhes não vislumbre o supremo desequilíbrio, que se verifica no íntimo da organização perispiritual.

Dispunham-me a desfiar longa lista de perguntas alusivas às duas personagens em foco, mas o interlocutor iniciou o serviço de assistência direta e, impondo a destra no lobo frontal esquerdo do doente encarnado, falou-me, afável:

- Cala meu amigo, tuas ansiosas indagações. Acalma-te. No transcurso de nossos trabalhos explicar-te-ei quanto estiver ao alcance de meus conhecimentos.

Cap. 3 - Livro No Mundo Maior – André Luiz – Francisco Cândido Xavier.

domingo, 30 de setembro de 2018

AUTO-APRIMORAMENTO



Tanto quanto sustentamos confidências menos felizes com os outros, alimentamos aqueles do mesmo gênero de nós para nós mesmos.
Como vencer os nossos conflitos interiores? De que modo eliminar as tendências menos construtivas que ainda nos caracterizam a individualidade? – indagamos-nos.
De que modo esparzir a luz se muitas vezes ainda nos afinamos com a sombra?
E perdemos tempo longo na introspecção sem proveito, da qual nos afastamos insatisfeitos ou tristes.
Ponderemos, entretanto que os doentes estivessem proibidos de trabalhar, segundo as possibilidades que lhes são próprias, e se os benefícios da escolha fossem vedados aos ignorantes, não restaria à civilização outra alternativa que não a de se extinguir, deixando-se invadir pelos atributos da selva.

**
Felicitemos-nos pelo fato de já conhecer as nossas fraquezas de defini-las. Isso constitui um passo muito importante no Progresso Espiritual, porque, com isso, já não mais ignoramos onde e com atuar em auxílio da própria cura e burilamento.
Que somos espíritos endividados perante as Leis Divinas, em nos reportando a nós outros, os companheiros em evolução na Terra, n!ao padece dúvida.
Urge, porém, saber como facerar construtivamente as necessidades e problemas do mundo íntimo.
Reconhecemos-nos falhos, em nos referindo aos valores da alma, ante a Vida Superior, mas abstenhamos-nos de chorar inutilmente no beco da autopiedade. Ao invés disso, trabalhemos na edificação do bem de todos.
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Cultura é a soma de lições infinitamente repetitivas no tempo.
Virtude é o resultado de experiências incomensuravelmente recapituladas na vida.
Jesus, O Mestre dos Mestres, apresenta uma chave simples para que se lhe identifiquem os legítimos seguidores: “conhece-los–eis pelos frutos”. Observemos o que estamos realizando com o tesouro das horas e de que espécie são as nossas ações, a benefício dos semelhantes. E, procurando aceitar-nos como somos, sem subterfúgios ou escapatórias, evitemos estragar-nos com queixas e autocondenação, diligenciando buscar, isto sim, agir, servir e melhorar-nos sempre.
Em tudo o que sentimos, pensamos, falamos ou fizermos, demos aos outros o melhor de nós, porque Deus nos conhecerá pelos bons frutos que produzirmos.
Emmanuel– Francisco Cândido Xavier – Livro rumo Certo

A Cura Começa quando Paramos de Fugir do que Sentimos

Curar não se parece com um triunfo imediato, nem como uma luz acesa o tempo todo. Curar, muitas vezes, manifesta-se como cansaço, como silên...